quinta-feira, 18 de abril de 2013


Òsáàlá é um assunto muito complexo dentro do culto. Todo òrísá fúnfún, ou seja, pertencentes à classe dos òrísás presentes desde o início do mundo e que veste branco, são considerados um Òsáàlá. Nesse caso, Ògbáàtálá, Òdúdúwà, Òràníyàn, Ájálá, Ísálé, Òsáàlúfón, Òrúnmíllá, Òkò, Òlóòròkè, Èfèjó, Ákànjápríkú, áròwú, Òsáàguíyàn, dentre outros, são Òsáàlás e cada um possui uma história dentro do culto e foram grandes reis, fundadores de povoados e vilarejos.
Os mais conhecidos Òsáàlás são Òdúdúwà o fundador de Ífé e Ògbáàtálá o fundador de Ágbéòkútá e governante supremo dos povos Ígbò. A disputa entre esses dois òrísás pela criação do mundo, pelo domínio da terra e pelo poder absoluto, foi o tema de várias lendas africanas. Na África o nome Òsáàlá é diretamente ligado à Ògbáàtálá, aquele que segundo os mais velhos foi incumbido pelo próprio Òlóòrún ou Òlóòdúmárè (o deus supremo) de criar o mundo e a humanidade. Já aqui no Brasil, o nome Òsáàlá está diretamente ligado à Òsáàlúfón, o senhor da cidade de Ífón.
Òsáàlúfón seria o grande rei, filho de Ògbáàtálá e herdeiro da terra, sendo chamado de Òlú Áíyè (senhor da terra). Assim como seu pai, carrega em suas mãos o Òpáàsòrò, cajado feito de estanho, símbolo da Supremacia e da hierarquia.
Foi casado com Nànàn e Íyèmònjá e seu culto é expandido até mesmo entre os dahometanos e os demais povos africanos. Muitas são as suas lendas, relatando detalhes de sua vida poligâmica, mas sempre deixando claro o quanto era bom, justo e sensato. Tinha o poder supremo, sendo respeitado por todos os demais ímòlés. Munido de seu cajado de estanho e vestes brancas como a nuvem, Òsáàlúfón representa a figura de um ancião, sábio, senhor da integridade e digno de respeito.
Às vezes se mostra ranzinza e enquizilado. Gosta de tudo em ordem, limpo e organizado. Sempre fazia visitas a seus filhos e amigos, sendo mais agarrado à Òsáàguíyàn, que herdou a linhagem dos òrísás fúnfún. Certo dia visitou Sàngò nas terras de òíyó e acabou por ser vítima de uma armadilha feita por Áíyrá, líder do exército da cidade, sendo confundido com um ladrão e largado na prisão por longos sete anos. Sàngò após ter visto o erro que seu exército cometera com o grande Òsáàlá, mandou que todos os habitantes de Òíyó se vestissem de branco, fossem aos rios mais próximos e trouxessem águas cristalinas, banhando Òsáàlúfón e fazendo uma grande festa, repleta de ègbò, acaçá e demais iguarias temperadas apenas com azeite de oliva. Até hoje esse ritual é repetido e os barracões celebram “As águas de Òsáàlá”, onde os adeptos se vestem de branco, rezam e levam água em quartinhas, lavando os assentamentos e o quarto de Òsáàlá e depois fazem uma grande festa em homenagem ao senhor de Ífón. Após o erro ser corrigido, devido a sua debilidade nas pernas agravada pela prisão e maus tratos, Òsáàlúfón mal andava. Áíyrá por sua vez, foi castigado por Sàngò, tendo que carregar Òsáàlúfón até Ífón nas costas e passando a servi-lo, sendo seu cervo.
Nànàn foi à primeira esposa de Òsáàlúfón. Ela era de Dahomey, cidade que fazia fronteira com Ífón. Com Nànàn, Òsáàlá teve três filhos: Òmóòlú (Sakpatá), Òsúmárè (Ákólò Gbèsén) e Íròkò (Lòkò), voduns dahometanos que passaram a ser cultuados pelos iorubas. Depois, Òsáàlá se casou com Íyèmònjá, a grande filha de òlóòkún, tendo com ela Òsáàguíyàn, Òsànýn, Òkò, Ájè Sálúgá, Òsún, Òíyá, Ógbà e os gêmeos Ígbèjí. Alguns ìtàns revelam divergências entre as esposas de Òsáàlá, sempre disputando o amor e a atenção do marido. Nànàn era a mais velha e Íyèmònjá a mais nova. Certo dia Òsáàlúfón partiu para uma viagem que levaria sete dias. Íyèmònjá convenceu Nànàn a tomar banho de lama para rejuvenescer e melhorar a aparência. Enquanto Nànàn ficou sete dias no pântano, Íyèmònjá se banhava com água fresca, se enfeitava e se perfumava, aguardando o retorno de Òsáàlá. Sete dias se passaram e Òsáàlúfón voltou para o palácio, sendo recebido por Íyèmónjá, trajada com uma linda veste branca, limpa e perfumada. Íyèmònjá indagou sobre o estado mental de Nànàn, dizendo para Òsáàlúfón que a mesma estava ficando caduca, pois ficou sete dias no pântano junto com cobras e sapos. Òsáàlá foi averiguar e se deparou com Nànàn imunda, dentro do pântano, vestida com uma roupa suja e coberta de lodo. No mesmo instante Òsáàlá repudiou Nànàn, separando-se da íyágbá.
Outras lendas contam uma eterna rivalidade entre Èsú e Òsáàlúfón. Èsú era o grande mensageiro de Òrúnmíllá e para os òrísás receberem mensagens de Òlóòrún
dependiam de Èsú. Todos rendiam homenagem ao grande poder de Èsú, porém Òsáàlúfón orgulhoso recusava-se a reverenciar Èsú, até por que Èsú era o seu avesso, gostando de tudo o que era Èwó para Òsáàlá (dendê, òtín, carvão, sal, fumo, preto, etc). Em uma determinada ocasião, Òsáàlúfón e Èsú discutiam quem era o mais antigo no mundo. Èsú afirmava ser ele o mais antigo e Òsáàlúfón negava, afirmando já existir no Òrún antes de Èsú e a terra serem criados. O desentendimento entre eles foi tão grande, que os dois òrísás foram convidados a lutarem entre si, diante dos demais ímòlés, reunidos numa assembleia. Como o de costume, Èsú e Òsáàlá consultaram Ìfá antes do confronto. Eles foram orientados a fazerem determinadas oferendas. Èsú confiante que venceria o ancião, não quis perder tempo fazendo oferendas e foi para a Praça de Ífé, local da luta. Òsáàlúfón fez todas as oferendas prescritas e também se dirigiu ao local. Èsú contava com seus talismãs e sua magia para derrotar Òsáàlá e Òsáàlúfón apoiado em seu Òpáàsòrò estava confiando em sua sabedoria e em seu poder. Começa a batalha e Òsáàlá pega Èsú e lhe dá uma palmada, fazendo com que caia no chão machucado. Èsú se levanta e Òsáàlá torna a lhe bater, dessa vez em sua cabeça, transformando-o em um anão. Èsú se sacudiu e voltou ao tamanho normal. Òsáàlá então pegou a cabeça de Èsú e a sacudiu com força e violência, fazendo com que ela ficasse enorme, maior que seu corpo. Èsú esfregou a cabeça com as mãos e recuperou o seu tamanho natural. Foi então a vez de Èsú que, pegando uma cabacinha, abriu-a repentinamente na direção de Òsáàlúfón, saindo de dentro uma fumaça branca, descolorindo Òsáàlá. Òsáàlúfón se esfregou repetidamente para voltar a sua cor normal, mas foi em vão, ele não conseguia retornar a sua cor natural. Òsáàlúfón então desfez seu turbante enrolado sobre a cabeça e, daí, tirou o seu poder, um talismã, tocando com ele em sua boca e chamando Èsú que como uma marionete, ficou sobre o controle de Òsáàlá, fazendo tudo o que lhe era mandado. Todos então reconheceram o poder de Òsáàlá, afirmando que ele era maior que Èsú e os demais òrísás, que ele sim era o òrísá mais antigo e poderoso.
Òsáàlúfón tem como principal símbolo seu cajado, o Òpáàsòrò. O Òpáàsòrò é a insígnia do poder e da hierarquia. Seria ele o divisor de águas, representando o Áíyè (terra), o Òrún fúnfún (espaço sagrado reservado para os inocentes, os sinceros e aqueles que tenham pureza em suas intenções) e o Òrún Márè         (espaço sagrado reservado para os seres perfeitos e absolutos sobre o céu e a terra, onde fica Òlóòrún e os demais òrísás). É o senhor da procriação, responsável pela continuação e propagação da espécie, sendo o senhor do sêmen. Tem como principal oferenda o Ígbí (caramujo) e o Ílé (pombo branco). Seus animais a serem sacrificados, ao contrário dos demais ògbórós (òrísás masculinos) são fêmeas, simbolizando a união entre os sexos e a procriação. É sincretizado como Nosso Senhor do Bom Fim e seu principal ritual é as águas de Òsáàlá. Na Bahia, no dia do Senhor do Bom Fim os adeptos vão até a igreja de mesmo nome, trajando branco e portando jarros com águas e flores, lavando toda a escadaria da igreja e fazendo suas oferendas. Usa fílá por representar o mistério e o respeito. Senhor da sabedoria e da liturgia, sendo o òrísá mais respeitado dentro todo o culto, reverenciado até mesmo pelos demais òrísás que, se manifestam quando são entoados cânticos ou rezas para o grande Òsáàlá, o maior entre todos os òrísás.
É o ultimo Òrísá cultuado nos dias de festa, encerrando o culto.
 Suas qualidades são:
  • Ògbáàtálá- é o mais velho dentre todos os Òsáàlás. Seu nome é a aglutinação das palavras Ògbá – rei, tý – de e álá – pano branco, ou seja, o rei do pano branco. É o guardião cívico, protetor dos templos e cidades. Representa as massas de ar, as águas frias e imóveis do começo do mundo. Disputa com Òdúdúwá o posto de criador da terra, sendo aquele que recebeu a devida missão. Pai de muitos òrísás fúnfún, dentre eles Òsáàlúfón. É o Òsáàlá mais conhecido dentre todo o território africano, sendo um dos grandes deuses iorubas;
·        Òdúdúwà- é segundo as lendas o fundador de Ífé, o berço do mundo. Muitos são seus mitos e em alguns vilarejos africanos é cultuado como Òdú ou Òdúwà, a senhora da cabaça, aparecendo no aspecto feminino e tendo grandes vínculos com as Íyámí. No território de Ádò, Òdúdúwà é indiscutivelmente íyágbá, sendo a esposa de Ògbáàtálá e dividindo com ele o poder do mundo, representado pela cabaça, cuja parte de cima é masculina e pertence à Ògbáàtálá e a parte de baixo é feminina e pertence à Òdúdúwà.  Já em Ífé e na grande maioria do território africano, Òdúdúwà aparece no aspecto masculino, sendo o pai de muitos òrísás, dentre os quais se destacam Ògún, Òdé, Èsú, Òkèrè, etc; 
·        Gbágbá Áfúrú- demarcação qualificativa dos caminhos de Òsáàlúfón, onde nesta fase Òsáàlá é completamente coligado ao elemento ar, representando o sopro divino (èmí), usado por Òlóòdúmárè nos seres humanos com a finalidade de dar-lhes a vida. Senhor da atmosfera e do oxigênio, tendo a propriedade de fazer com que o ar da terra nunca acabe. Rege os pulmões e os demais órgãos ligados a respiração. Representa o último suspiro, sendo responsável também pelo desencarne, estando ligado tanto a vida quanto a morte;
·        Gbágbá Òfúríkàn- também chamado de Fúríkàn ou Òdídè, essa fase de Òsáàlúfón é responsável pela aceitação e transporte de tudo o que é oferecido para os Òrísás. Antes de se entregar ou levantar qualquer oferenda ou ègbó, bate-se três vezes com a mesma no chão, dizendo-se “òdídè òdídè Ágò!”, desta forma pedindo licença á Gbágbá Fúríkàn. Senhor do descanso e do repouso, responsável por repor as energias, através do sono;
·        Gbágbá Òdè- Fase de Òsáàlúfón ligada diretamente à velhice. É responsável pelo bem estar e pela boa qualidade de vida dos idosos. Senhor da sabedoria dos anciãos, fazendo com que sejam respeitados por suas experiências de vida. Tem a propriedade de proteger os mais velhos, cobrando diretamente aqueles que maltratam e desrespeitam os idosos. Rege o lado infantil da terceira idade;
·        Gbágbá Òlètúndè- fase de Òsáàlúfón ligada ao corpo e ao caráter. Rege a individualidade do ser humano, frisando a tese de que ninguém nesse mundo é igual, todos são diferentes. É o dono das impressões digitais e dos dedos das mãos. Senhor da honestidade e da integridade, castigando os que vivem a margem da sociedade;
·        Gbágbá Èpá- fase de Òsáàlúfón ligada diretamente ao Ògbí (noz de cola). Rege todos os rituais onde esse fruto é consagrado e ofertado, respondendo diretamente por todos òrísás no jogo de ògbí. Foi ele que ofertou o ògbí roxo para Èsú e Íyá Tònàn. Sua principal quizila é o òkòtílé (broto do ògbí) e, por este motivo é que os tiramos do Ògbí antes de ofertar à òrí, ígbá, ídí òrísá e oráculos;
·        Gbágbá Ápáàlá- fase de Òsáàlúfón coligada diretamente aos caminhos de Sàngò e Áíyrá. Rege o lado positivo de Áíyrá, tendo-o como seu principal e leal servo. Este Òsáàlúfón representa o ítàn cujo Òsáàlá é carregado até seu castelo em Ífón por Áíyrá. Possui como símbolo o ponto central do Òsè (machado de duas lâminas);
·       Gbágbá Ájálá- senhor do òrí, sendo chamado de gbágbá òrí. É o senhor de todas as cabeças, responsável por modela-las e protege-las. Segundo os ìtàns, antes do ser humano vir a terra, ele escolhe seu òrí na prateleira de Ájálá e logo depois recebe o èmí (sopro da vida dado por Òlóòrún). Após receber o èmí ele vai até ònígbòdè (o guardião do outro mundo) e se apresenta, relatando tudo o que vai fazer e ser na terra, podendo depois nascer. Ájálá não é uma qualidade de Òsáàlúfón e sim um òrísá a parte coligado a sua cultura por ser um Òsáàlá, ou seja, um òrísá fúnfún. Não é iniciado em nenhum neófito, sendo cultuado no ígbá òrí juntamente à Ìyá Másè;
·       Gbágbá Ísálé- òrísá fúnfún a parte, não sendo uma qualidade de Òsáàlúfón. Muito velho e poderoso, Ísálé é o senhor da humanidade, responsável pela sua evolução e por sua continuidade, evitando catástrofes e doenças que poderiam de uma vez só erradicar a vida humana na terra. Recebeu diretamente de Òlóòrún a missão de proteger os seres humanos e fazer com que caminhemos corretos para com as leis divinas e os mandamentos do Deus Supremo;
·       Gbágbá Lèjúgbè- Também chamado de òrísátèkó, vêm nos caminhos de Áíyrá, Íyèmònjá e Òdúdúwà. É um Òrísá fúnfún a parte coligado a cultura de Òsáàlúfón por ser muito velho e devagar. Tem como principais oferendas carnes brancas. É o grande Òsáàlá cultuado na região de Sávé que fazia parte da comitiva de Òdúdúwà;
·       Gbágbá Ájáguèmó- Òsáàlá cultuado em Èdé, tendo um culto a parte e sendo um antigo òrísá fúnfún. Tem como maior símbolo o Águèmó (camaleão), animal de extrema importância para os iorubas e presente desde o inicio do mundo. Conhecido por anualmente promover um “combate de mímicas” disputado entre Gbágbá Ájáguèmó e Òlúníwí;
·       Gbágbá Álásé- Òsáàlá cultuado em Ípòndá. Òrísá fúnfún responsável por abastecer o mundo através das chuvas. É o grande salvador da humanidade, pois quando a terra passava por um grande período de seca, foi Gbágbá Álásé que fez chover e salvou os seres humanos. Cultuado como o senhor das nuvens;
·       Gbágbá Òkò- também chamado apenas de Òkò ou Òlágbírín, é um òrísá fúnfún presente desde o principio da humanidade. Vêm nos caminhos de Ògún, Òsànýn, Òsóòsí e Òmóòlú. É o grande senhor dos campos, da agricultura, das sementes e das favas. Segundo as lendas, Òkò ganhou de Ògún ferramentas para poder arar a terra, facilitando o plantio e o cultivo dos vegetais. Responsável por tudo o que a terra oferece como refeição, tendo a propriedade de trazer o alimento à mesa de cada ser humano. Usa cajado de madeira e uma flauta de osso. Também era um exímio caçador, que transportava as riquezas do campo para a sua casa;
·       Gbágbá Ákànjápríkú- Òrísá fúnfún originário das terras de Ífón. Seria um Òsáàlá muito velho e arredio, cultuado inicialmente na casa do Òpò Áfónjá - BA. Está presente desde o início do mundo e representa os antigos anciãos e a sabedoria dos mais velhos. Tem fundamento com a ancestralidade, sendo cultuado aos pés do Íròkò, árvore da qual se tira a madeira para a construção de seu cajado;

Saudação: Èsè ò èpá gbágbá! Ímòlé! Lésé Lésé!
Cor: branco;
Filiação: Ògbáàtálá;
Sincretismo: Senhor do Bom Fim;
Elemento: ar, terra e água;
Número: 10 (dez) e 16 (dezesseis);
Òdú: Òfún e Áláàfíá;
Dia da semana: sexta-feira;
Oferendas: acaçás, ègbò, frutas, doces, èmú, galinha d’angola branca, cabras, frangas, pombos, ovelha, ìgbí, etc.
Ervas: Manjericão branco, colônia, folha da costa, malva branca, algodão, boldo, barba de velho, alecrim, alfavaca, etc.

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